Londres aprovou a lei do esgoto em 18 dias depois que o fedor chegou ao Parlamento
Em 1858, o Tâmisa fedeu tanto que deputados discutiram mudar o Parlamento para Oxford. O que a cólera não conseguiu, o cheiro conseguiu.
Assunto sério, do jeito mais torto possível.
Durante 25 anos, três epidemias de cólera mataram dezenas de milhares de londrinos e ninguém resolveu nada. Em 1858, o cheiro do rio Tâmisa chegou às janelas do Parlamento britânico, e a lei para financiar um novo sistema de esgoto saiu em 18 dias.
Naquele junho, Londres era a maior cidade do mundo e enfrentava um calor que ninguém lembrava de ter sentido. O Tâmisa recebia a sujeira de mais de 2,5 milhões de pessoas. Com quase nenhuma chuva, os dejetos fermentavam ao sol nas margens, e os jornais batizaram o episódio de Grande Fedor.
Cortinas com cal clorada e um plano de fuga
O Parlamento ficava na beira do rio. Os deputados penduraram nas janelas cortinas encharcadas de cal clorada, sem resultado. Um jornal registrou o líder da Câmara, Benjamin Disraeli, saindo de uma sala com um lenço apertado contra o nariz. O próprio Disraeli chamou o rio de "um poço do inferno, exalando um horror inefável e insuportável".
A rainha Vitória tentou um passeio de barco pelo Tâmisa e, em poucos minutos, mandou dar meia-volta. Os deputados chegaram a discutir a mudança do Parlamento para Oxford. Por fim, a lei autorizou 3 milhões de libras, cerca de R$ 3 bilhões em dinheiro de hoje, pela conta publicada pelo canal.
A privada que piorou tudo
O problema vinha de antes. No começo do século 19, cada casa de Londres tinha uma fossa no porão, esvaziada de tempos em tempos com balde e carroça. A privada com descarga mudou a conta: cada uso despejava muito mais água, e as fossas transbordavam. Na Grande Exposição de 1851, mais de 800 mil pessoas pagaram um penny, cerca de R$ 5 de hoje, só para experimentar o modelo novo.
A saída do governo, em 1848, foi mandar ligar as casas às galerias existentes, feitas para levar água de chuva até o rio. Assim, o esgoto da cidade passou a ir direto para o Tâmisa, de onde várias companhias tiravam a água que Londres bebia.
O médico que não foi ouvido
Quase todo mundo acreditava no miasma, a teoria de que a doença vinha do mau cheiro. O médico John Snow desconfiava de outra coisa. Em 1854, quando a cólera matou mais de 500 pessoas em dez dias no bairro do Soho, ele marcou cada morte em um mapa, e os registros se amontoaram em volta de uma bomba d'água pública. Snow mandou tirar a alavanca da bomba, e o surto acabou.
Pouca gente deu ouvidos. Ele morreu em 16 de junho de 1858, no meio do Grande Fedor, sem ver Londres fazer o que tinha pedido.

O esgoto certo pelo motivo errado
O encarregado da obra foi Joseph Bazalgette, engenheiro-chefe das obras da cidade, que tinha um plano pronto havia anos: túneis enormes, paralelos ao Tâmisa, para interceptar o esgoto das ruas antes do rio e levá-lo para depois da cidade. Foram quase 2.000 km de esgoto e 318 milhões de tijolos. Bazalgette calculou o tamanho dos canos de que Londres precisava e dobrou. Em 1865, o príncipe de Gales inaugurou a estação de bombeamento de Crossness, apelidada de catedral do esgoto.

A obra foi feita para acabar com o cheiro, porque seus responsáveis acreditavam no miasma. A teoria estava errada, mas o resultado apareceu: ao tirar o esgoto do rio, tiraram também a cólera da água de beber. Em 1866, a última grande epidemia de Londres se concentrou no leste, na área que ainda não estava ligada ao sistema, e a teoria de Snow começou a ser levada a sério.
O sistema funciona até hoje, mas foi feito para uma Londres de cerca de 4 milhões de pessoas, e hoje são quase 9 milhões. Em 2025, ficou pronto um túnel de 25 km sob o rio.
E o Tietê?
No Rio de Janeiro, antes da rede de esgoto, o serviço era feito por pessoas escravizadas, que carregavam barris de dejetos na cabeça até o mar e eram chamadas de tigres, pelas manchas que o líquido deixava na pele. A rede foi inaugurada em 1864 por uma companhia inglesa.
Em São Paulo, os paulistanos remavam e nadavam no Tietê nos anos 1920. Depois, a cidade mandou o esgoto para o rio. Desde 1992, foram cerca de US$ 3,5 bilhões para despoluí-lo, quase R$ 20 bilhões, e em 2025 ainda eram 174 km de rio sem condição de uso.
Atualizada em 31/10/2026 12h38
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