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Brasil

A Revolta da Vacina de 1904 começou muito antes da agulha

Seis dias de guerra urbana pararam o Rio depois de despejos, fiscais em casa e um regulamento duro. A vacina foi só a faísca.

Por Redação Almanaque Torto
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Assunto sério, do jeito mais torto possível.

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Em novembro de 1904, bondes foram virados e incendiados no centro do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, e moradores do bairro da Saúde ergueram barricadas com paralelepípedos e restos de bonde. Foram seis dias de guerra urbana. O motivo mais citado é a vacina contra a varíola, mas essa é só uma parte da história.

No começo do século 20, o Rio era o maior porto do país e um dos lugares mais insalubres das Américas, com febre amarela, peste bubônica e varíola. Boa parte dos trabalhadores do centro vivia em cortiços. Em 1902, o presidente Rodrigues Alves assumiu prometendo modernizar e sanear a capital.

O bota-abaixo e os caçadores de rato

O prefeito Pereira Passos comandou o plano apelidado de bota-abaixo. Só para abrir a Avenida Central, atual Rio Branco, cerca de 640 prédios foram derrubados. Milhares de pessoas perderam onde morar, e muita gente foi empurrada para os subúrbios ou para os morros.

O médico Oswaldo Cruz, nomeado diretor-geral de saúde pública em 1903, criou brigadas mata-mosquitos que entravam nas casas e podiam interditar imóveis. Contra a peste, o governo pagou 300 réis por rato morto. Um vendedor entregou quase 28 mil ratos de uma vez, boa parte vinda de Niterói, e perdeu na Justiça ao cobrar a conta. A febre amarela começou a cair, mas a desconfiança dos moradores crescia.

Retrato em preto e branco do médico Oswaldo Cruz

A lei e o regulamento

Em 31 de outubro de 1904, o Congresso tornou obrigatória a vacinação contra a varíola. A aplicação era feita com pequenos cortes no braço, e os boatos se espalharam: que a vacina transmitia doenças e que homens estranhos exigiriam que as mulheres mostrassem braços e coxas.

A faísca foi o regulamento, publicado nos jornais em 9 de novembro. Ele exigia atestado de vacinação para matrícula na escola, emprego, casamento, viagem e até hospedagem em hotel, sob pena de multa. A oposição reuniu trabalhadores, médicos, intelectuais, positivistas, políticos e militares. O jurista Rui Barbosa escreveu: "Assim como o direito veda ao poder humano invadir-nos a consciência, assim lhe veda transpor-nos a epiderme".

Seis dias e um golpe frustrado

Os comícios começaram em 10 de novembro, e a polícia reagiu. A Saúde virou uma fortaleza, apelidada pelos jornais de Porto Arthur. O governo chamou Exército, Marinha e bombeiros. Quando os soldados chegaram, encontraram as trincheiras vazias, dinamites que eram pedaços de madeira enrolados em papel prateado e um canhão feito de cano de poste de luz.

Na noite de 14 de novembro, alunos da Escola Militar da Praia Vermelha marcharam armados rumo ao Palácio do Catete, em uma tentativa de golpe. O tiroteio na Rua da Passagem, em Botafogo, dispersou os cadetes e feriu de morte o general Silvestre Travassos. Em 16 de novembro, o governo decretou estado de sítio e suspendeu a obrigatoriedade.

O saldo oficial foi de 30 mortos, 110 feridos e 945 presos, dos quais 461 foram deportados para o Acre.

O que veio depois

Em 1908, uma epidemia de varíola matou mais de 9 mil pessoas no Rio, segundo as estatísticas oficiais, e a população correu para os postos de vacinação sem lei que a obrigasse. O Brasil registrou seu último caso em 1971, e a Organização Mundial da Saúde declarou a doença extinta em 1980.

Oswaldo Cruz de perfil, com a inscrição "1908, a virada"

Atualizada em 31/10/2026 12h38

Esta matéria nasceu de um episódio do canal.

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